{"id":70,"date":"2022-04-28T10:30:00","date_gmt":"2022-04-28T13:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acasasabia.wordpress.com\/?p=70"},"modified":"2022-10-12T09:16:02","modified_gmt":"2022-10-12T12:16:02","slug":"santo-agostinho-e-a-filosofia-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acasasabia.com.br\/index.php\/2022\/04\/28\/santo-agostinho-e-a-filosofia-do-tempo\/","title":{"rendered":"Santo Agostinho e a Filosofia do Tempo"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\"><div class=\"has-text-align-right wp-block-post-author\"><div class=\"wp-block-post-author__content\"><p class=\"wp-block-post-author__byline\">Autor:<\/p><p class=\"wp-block-post-author__name\">Prof. Jo\u00e3o Pedro<\/p><\/div><\/div>\n\n<div class=\"has-text-align-right wp-block-post-date\"><time datetime=\"2022-04-28T10:30:00-03:00\">28 de abril de 2022<\/time><\/div><\/div><\/div>\n\n\n\n<p>A filosofia do tempo \u00e9 um problema metaf\u00edsico de grande porte, e ganhou destaque na filosofia contempor\u00e2nea. Todavia, seria um equ\u00edvoco de nossa parte creditar apenas \u00e0 filosofia contempor\u00e2nea o interesse pelo tempo. Este tema \u00e9 tratado desde a filosofia antiga, e Agostinho de Hipona, tamb\u00e9m conhecido como Santo Agostinho, \u00e9 um dos grandes pensadores que fez uma filosofia do tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Santo Agostinho e o Tempo\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5pvkmzXn6Qg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. \u201cSe n\u00e3o me perguntam, eu sei. Se me perguntam, eu n\u00e3o sei\u201d.<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos textos mais importantes para o tratamento da quest\u00e3o \u00e9, certamente, o livro XI de seu livro \u201cConfiss\u00f5es\u201d. Bom escritor, Agostinho inicia a quest\u00e3o num tom brincalh\u00e3o: \u201cO que \u00e9 o tempo? Se&nbsp;n\u00e3o me perguntam, eu&nbsp;sei. Se&nbsp;me perguntam, eu&nbsp;n\u00e3o sei\u201d. A brincadeira faz ecoar a reflex\u00e3o de um fil\u00f3sofo que viveu um pouco mais de um s\u00e9culo antes de Agostinho, o famoso Plotino<sup><a href=\"#notasderodape\">1<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho escreveu uma piada. Contudo, n\u00e3o \u00e9 menos verdade que ela est\u00e1 recheada de conte\u00fado filos\u00f3fico. Afinal, desde que nascemos temos alguma experi\u00eancia de tempo, e em algum momento de nossa inf\u00e2ncia j\u00e1 temos internalizado o calend\u00e1rio. (Eu me lembro de uma colega do jardim de inf\u00e2ncia que se revoltou com a professora porque acreditava que seu anivers\u00e1rio era em junho \u2014 mas, na verdade, era em julho; por uma letra ela teve seu dia arruinado\u2026). Por isso mesmo, supomos que saibamos o que \u00e9 o tempo. No entanto, ao refletirmos mais profundamente a respeito de seus paradoxos, encontraremos uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos, de modo que n\u00e3o sabemos exatamente o que ele \u00e9. A postura filos\u00f3fica, ali\u00e1s, \u00e9 aquela que reflete sempre, que procura sempre&nbsp; os seus fundamentos, por isso algo que, num primeiro momento parece \u00f3bvio, depois se torna bastante complexo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. Entre o tempo e a eternidade.<\/h2>\n\n\n\n<p>Para elaborar sua reflex\u00e3o,&nbsp; Agostinho parte de uma caracter\u00edstica \u201cb\u00e1sica\u201d sobre o tempo: ele pode ser dividido em passado, presente e futuro. O que percebemos, desta divis\u00e3o, \u00e9 que o futuro n\u00e3o existe: ele ainda est\u00e1 <em>por vir<\/em>. O passado, no que lhe concerne, tamb\u00e9m n\u00e3o existe. Afinal, \u00e9 aquilo que j\u00e1 passou \u2014 de algum modo j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Resta-nos, ent\u00e3o, o momento&nbsp;presente. \u00c9 ele quem podemos experimentar em nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nessa constata\u00e7\u00e3o, Agostinho se interroga sobre qual seria a diferen\u00e7a entre o presente e a eternidade. Afinal de contas, na eternidade n\u00e3o h\u00e1 um <em>foi<\/em>&nbsp;ou um <em>ser\u00e1<\/em>&nbsp;\u2014 tudo sempre <em>\u00e9. <\/em>O fil\u00f3sofo aproveita a reflex\u00e3o para lembrar que, ao falar em <em>Cria\u00e7\u00e3o do mundo<\/em>&nbsp;(Agostinho professava a f\u00e9 crist\u00e3), \u00e9 um equ\u00edvoco dizer que \u201cDeus realizava algo antes da Cria\u00e7\u00e3o do mundo\u201d, justamente porque na eternidade de Deus n\u00e3o h\u00e1 antes ou depois. Concluindo, ent\u00e3o, que o presente n\u00e3o \u00e9 a eternidade, Agostinho afirma que o presente, para efetuar-se como tal precisa ser uma passagem do futuro para o presente e do presente para o passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. O tempo e suas divis\u00f5es.<\/h2>\n\n\n\n<p>Agostinho continua sua reflex\u00e3o, desta vez se interrogando sobre a divisibilidade do tempo. Isso porque passado, presente e futuro s\u00e3o categorias que se relacionam com v\u00e1rias unidades de tempo. Um exemplo simples: estou escrevendo este texto no m\u00eas de abril: tenho 8 meses de futuro at\u00e9 o fim do ano, e 3 meses de passado. Mas o m\u00eas de abril \u00e9 o presente? Afinal, hoje \u00e9 28 de abril: j\u00e1 se passaram 117 dias desde o in\u00edcio do ano, e ainda faltam 247 at\u00e9 o seu encerramento. A pergunta, ent\u00e3o, se refaz: o dia 28 de abril \u00e9 o presente?<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos raciocinar a partir desta divisibilidade do tempo pelos dias, horas, minutos, segundos, e mesmo que cheg\u00e1ssemos a uma part\u00edcula t\u00e3o \u00ednfima que pud\u00e9ssemos denominar \u201cpresente\u201d, essa part\u00edcula seria t\u00e3o pequena que n\u00f3s n\u00e3o a perceber\u00edamos. Deste modo, esta part\u00edcula passaria t\u00e3o rapidamente do futuro para o passado, que nem sequer a perceber\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4. O conceito de dura\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n\n\n\n<p>Ora, se nem sequer conseguimos perceber o instante presente, como medimos o tempo? O hiponense responder\u00e1 que o tempo existe na <em>Dura\u00e7\u00e3o<\/em>. Tomemos como exemplo este pr\u00f3prio texto, ou at\u00e9 essa frase: as palavras que j\u00e1 se passaram fazem parte do passado. N\u00e3o obstante, elas ainda permanecem em n\u00f3s, atrav\u00e9s da nossa mem\u00f3ria. Do mesmo modo, a <em>expectativa<\/em>&nbsp;torna poss\u00edvel o nosso acesso ao futuro. Ainda mais: esta reflex\u00e3o vale n\u00e3o s\u00f3 para esse texto, mas para as a\u00e7\u00f5es humanas,&nbsp;para a vida inteira e para a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O que percebemos, portanto, \u00e9 que Agostinho desloca a percep\u00e7\u00e3o do tempo do \u00e2mbito extra-mental para o mental. Agostinho advoga: \u201cEm ti, minha mente, me\u00e7o os tempos\u201d (Conf. XI, 27, 36). Se trata de dizer que, para Agostinho, o tempo n\u00e3o existe fora das nossas mentes, como uma propriedade da natureza? Esta interpreta\u00e7\u00e3o, que poder\u00edamos chamar \u201csubjetivismo forte\u201d, n\u00e3o \u00e9 necessariamente a sustentada por Agostinho. Pelo modo com que Agostinho fez a sua exposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me enxergo em condi\u00e7\u00f5es de concluir que esta seja a posi\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo; afinal, \u00e9 bem poss\u00edvel que Agostinho estivesse apenas destacando que a percep\u00e7\u00e3o que temos do tempo \u00e9 dependente de fun\u00e7\u00f5es do nosso pr\u00f3prio intelecto.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Notas:<\/h3>\n\n\n\n<p id=\"notasderodape\">[1] Os especialistas notam como Agostinho aproveitou muito de seu contato com a obra de Plotino; mas isso \u00e9 um tema para outro post \u2014 por enquanto gostaria apenas de sinalizar que houve essa influ\u00eancia.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias:<\/h3>\n\n\n\n<p>AGOSTINHO. <strong>Confiss\u00f5es<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras\/Penguin, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/fasbam.edu.br\/pesquisa\/periodicos\/index.php\/basiliade\/article\/view\/280\/146\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">LOBO, L\u00facio Souza;&nbsp;LUZ NETO, Jo\u00e3o Pedro. <strong>Sobre a fragilidade da exist\u00eancia humana em Confiss\u00f5es XI<\/strong>. Basil\u00edade &#8211; Revista de Filosofia, v. 3, p. 105, 2021.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/71537853\/Introduc_a_o_ao_Pensamento_de_Agostinho_de_Hipona\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">LUZ NETO, Jo\u00e3o Pedro.; LUZ, C. ; PEREIRA, K. L. F. . I<strong>ntrodu\u00e7\u00e3o ao Pensamento de Agostinho de Hipona.<\/strong> In: Belmaia, Nathany A. W., Amador, Cassio H. dos S., Frizzo, Matheus K., Miranda, Guilherme N., Henrique, Heitor E., Archer, Renan B., Pinto, Ot\u00e1vio L. V.. (Org.). Di\u00e1logos sobre Hist\u00f3ria Antiga e Medieval. 1ed.Curitiba: Universidade Federal do Paran\u00e1, 2022, v. 2, p. 168-203.<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-author\"><div class=\"wp-block-post-author__avatar\"><img alt='' src='https:\/\/acasasabia.com.br\/wp-content\/litespeed\/avatar\/ea49ef38b9f8a13335ae2dc626c9f739.jpg?ver=1777463956' srcset='https:\/\/acasasabia.com.br\/wp-content\/litespeed\/avatar\/750004ef05e079d0fe303b00c950714d.jpg?ver=1777328732 2x' class='avatar avatar-48 photo' height='48' width='48' \/><\/div><div class=\"wp-block-post-author__content\"><p class=\"wp-block-post-author__byline\">Texto Escrito Por:<\/p><p class=\"wp-block-post-author__name\">Prof. Jo\u00e3o Pedro<\/p><p class=\"wp-block-post-author__bio\"><\/p><\/div><\/div>\n\n\n<ul class=\"wp-block-social-links is-layout-flex wp-block-social-links-is-layout-flex\"><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A filosofia do tempo \u00e9 um problema metaf\u00edsico de grande porte, e ganhou destaque na filosofia contempor\u00e2nea. 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